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Argentina preocupada com o Brasil na crise

October 18th, 2008 · No Comments · Argentina, Brasil

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Não ouvi falar de presidente que não tratasse de minimizar os efeitos da atual crise financeira em seus países. Acontece que alguns realmente precisam minimizar mais que outros. Numa comparação breve, Cristina Kirchner e Lula fizeram igual, mas diferente. Quando Lula diz que Brasil está mais preparado para enfrentar a crise que em épocas passadas, ele tem mais razão do que quando Cristina diz o mesmo sobre seu país. A Argentina hoje depende muito mais do que ocorre no Brasil – seu maior parceiro comercial – do que em outros pagos.

Em poucas palavras, o período pós 2001 até hoje foi marcado por uma incapacidade da Argentina de atrair reais investimentos. O país foi menos atraente até mesmo que o Paraguai e o Peru. A saída da economia argentina foi exportação de produtos primários e turismo. Sem investimentos, sem modernização de indústria, o país foi impossibilitado de ter acesso a mercados-chave que fariam dele um player internacional. Mesmo assim, o vento a favor muito bem aproveitado por países vizinhos – Brasil e Chile, principalmente – bateu na tangente aqui: o crescimento da economia desses dois países puxou e muito o crescimento da Argentina.

Depois de 2001 e do fim da dolarização dos anos 90, a Argentina conseguiu reativar sua economia (produção, mercado interno) baseada num câmbio de dólar alto/peso desvalorizado. Isso barateou os produtos argentinos e lhes deu competitividade. Foi possível restabelecer certo nível de empregos (ainda que a informalidade chegue a quase metade da força laboral), mercado interno, exportações.

Era uma política necessária e que deveria ter sido mais provisória do que foi, porque o lado negativo dela é que se chega num ponto em que de nada adianta vender barato um produto de qualidade inferior. Para mudar isso, é necessário investimento, crédito para modernização de maquinária de empresas, por exemplo. Manter por muito tempo um dólar alto encarece as importações – uma vantagem, porque o nacional mais barato se vê favorecido. Porém quando já se tem um mercado ativado e a indústria necessita reinvestir em busca de qualidade, se para isso for necessário importar insumos e equipamentos cujos preços aumentam em dólar, fica fácil deduzir que se atinge um gargalo, um fim de linha difícil de superar sem mudanças na área econômica. Aliás, essa falta de correção de linha econômica é o que vem gerando inflação na Argentina antes mesmo dos problemas deflagrados no âmbito internacional.

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Já comentei aqui que, mesmo quando o preço do dólar começou a cair internacionalmente, a Argentina manteve um dólar alto (peso fraco) artificial. Trocando em miúdos: quando o real ficou forte, o peso deveria ter ficado também, ainda que em menor medida, mas isso não aconteceu. O Brasil ficou caro para os argentinos, a Argentina barata para os brasileiros. Um aluvião de turistas aterrissou por aqui. Cada vez mais empresas brasileiras compravam empresas argentinas e investiam no país (uma onda que está longe de terminar).

O real forte não trouxe somente turistas, indústrias e investimentos brasileiros para a Argentina. O crescimento da economia brasileira também alavancou a atividade industrial por aqui. Empresas argentinas produzem em complementaridade com as brasileiras. Para citar apenas um exemplo: muitas partes para aviões e automóveis brasileiros são produzidos em Córdoba. Desde 2001, os investimentos brasileiros diretos na Argentina somam US$ 8 bilhões. Segundo a embaixada brasileira em Buenos Aires, só em 2008 o volume de comércio entre os dois países deve bater na casa dos US$ 30 bilhões (20 anos atrás, era de US$ 1,686 bilhão).

É por isso que a Argentina está muito mais preocupada com o que acontece na economia brasileira, na Bolsa de Valores de São Paulo, na flutuação de índices de atividade econômica que a FIESP e FIEMG (Federação das Indústrias dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente) possam publicar. E as decisões políticas de como enfrentar a crise por aqui, além de limitadas, ficam na esteira do que aconteça do outro lado da fronteira.

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