.:Cartas Argentinas:.

O que acontece na Argentina, em bom português

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Cai o real na Argentina: isso é bom ou ruim?

October 6th, 2008 · 1 Comment · Argentina, Turismo

Há alguns dias, eu havia prometido esse post aqui no blog. Aviso que o texto é longo, porém respire fundo e chegue até o fim! Entender o que se passa aqui é essencial se você quer vir para a Argentina a turismo ou até mesmo se planeja morar por um tempo, estudar ou trabalhar por aqui. Simbora!

Crédito da foto

A Argentina tem presenciado uma verdadeira enxurrada de brasileiros. Turistas de primeira viagem, mochileiros, estudantes: todo mundo queria finalmente visitar o país, antes inacessível principalmente pelos preços dolarizados durante a década de 90.

O principal porto de entrada é mesmo Buenos Aires, que abocanha 70% do turismo internacional na Argentina. Por isso mesmo, a cidade é o termômetro do que, em menor grau, passa ao longo do país: não há mais rua em que não se escute alguém falar português, o real é aceito nos locais turísticos e até mesmo em muitas lojas, estudantes abarrotam cursos de universidades privadas que, por aqui, saem bem mais barato que em muitas das principais cidades brasileiras.

Segundo dados do Informe anual de Turismo Internacional publicado pela subsecretaria de turismo da capital argentina, os brasileiros vêem consistentemente crescendo como o principal grupo estrangeiro a visitar a o país de Maradona. Durante 2007, responderam por 23,91% das visitas exclusivas à cidade de Buenos Aires (americanos e canadenses conformaram 10,57% e europeus, 10,33%). Quando se trata de seguir pelo interior da Argentina havendo também visitado a capital, 12,98% botaram o pé na estrada, ao passo que europeus e americanos/canadenses tiveram mais espírito de aventura (39,84% e 17,28%, respectivamente).

Estes robustos números têm mais de uma explicação. Sem querer aqui analisar o movimento de estudantes e residentes (em que o valor da cotização do real teve seu peso, mas nem sempre definitivo), fiquemos apenas com a explosão turística. A fins de 2004, quando me mudei para a Argentina por mais tempo (até hoje…), quase não havia tantos brasileiros. Eu mesma era quase uma novidade. O real e o peso valiam quase a mesma coisa, mesmo assim os preços por aqui eram mais em conta… que em São Paulo (não afirmo nada em comparação a capitais do nordeste, por exemplo). O fato de os preços serem mais baratos tem a ver com a crise que estourou por aqui a fins de 2001.

Durante o ano de 2005, o peso pedeu cerca de 30% de seu valor frente ao real. A grande valorização da moeda brasileira veio a partir de 2007: o ano começou com as casas de câmbio comprando 1 real por cerca de 1,45 pesos e até o dia 8 de setembro de 2008 o normal era que 1 real não fosse vendido por menos de 1,74 pesos em média em casas de câmbio portenhas.

Tendo em mãos uma moeda valendo quase o dobro do peso, os brasileiros fincaram brandeira em Buenos Aires, achando tudo “muito barato” (sem saber que a inflação aqui já dobrou, triplicou e, em alguns casos, quintuplicou o preço de muito produtos/serviços desde 2005).

Crise, moedas, câmbio e intercâmbios

Hoje, com a crise financeira desencadeada nos EUA fazendo estragos mundo afora, uma queda de 15% na Bovespa só hoje (forçada a parar as negociações duas vezes até o momento em que escrevo esta nota), fica difícil se lembrar que o movimento das moedas na Argentina não é livre e que a queda no preço do real aqui já vinha acontecendo ANTES das últimas três semanas (efeito dominó de quebra de bancos nos EUA, contágio na Europa, Ásia e, claro, Brasil). Afinal, quem se importa com a Argentina, certo?

VOCÊ, que lê este blog! Portanto, atenção: o dia 8 de setembro foi um ponto de inflexão nesse preço pago pela moeda brasileira na Argentina. Nesse dia, os presidentes Lula e Cristina Kirchner firmaram um acordo cuja principal medida foi o estabelecimento de um sistema de pagos em moeda local (SML), que na prática elimina o dólar nas relações de pagos entre Brasil e Argentina. Essa media faz antever o uso de uma moeda comum a futuro, mas no momento, favorece a pequenas e médias empresas afugentadas do comércio exterior diante dos altos custos das operações em dólar. Adotar o SML, no entanto, não é obrigatório. A medida entrou em vigor no último dia 3 de outubro.

O que isso tem a ver com o turista?

Crédito da foto

Você não faz comércio internacional com a Argentina, oras. Só quer comprar aquele bendido pacote turístico e vir pra Buenos Aires curtir, passar um feriadão, caprichar no portunhol, ir a um show de tango, comprar uma jaqueta de couro, ser assaltado na Florida… O que tudo isso tem a ver com você?

Quando soube do acordo que estabeleceu o SML, fiz uma previsão e acertei: o real começaria a cair. Note que isso foi ANTES da notícia da quebra do Lehman Brothers e toda a bola de neve negativa que isso gerou nos mercados financeiros do mundo todo. Era algo claro pra quem vive aqui e está sintonizado (sim, porque também está cheio de gente que só acha tudo lindo, tirando uma onda em blogs pra dizer que está fora do Brasil): sabendo que o câmbio é praticamente a única ferramenta de política econômica argentina, finalmente o país “permitiria” que o real caísse por aqui. Entendamos algo: a Argentina só funciona porque controla o valor do câmbio. O valor que se paga numa casa de câmbio por aqui não tem nada a ver com o preço real dessas moedas. Portanto o valor do peso é artificial, tanto frente ao dólar quanto frente ao real. Só com um peso desvalorizado, a Argentina consegue ter uma balança comercial superavitária e reunir assim divisas para pagar seus compromissos internacionais (e olha que ainda assim está difícil!). Acontece que o peso esteve mais devalorizado do que deveria estar por muito tempo.

Vamos ao poucos: o dólar

Comecemos com o dólar, por exemplo. O valor da relação dólar/real no Brasil era REAL (apesar da redundância), porque muitos dólares entraram no país, e a lei de oferta/demanda reza que o preço que se tenha que pagar em real por cada dólar seja MENOR. Portanto, o real se fortaleceu: menos reais eram necesários para comprar uma mesma quantidade de dólares.

Durante a greve do campo que durou de março a mediados de julho deste ano na Argentina, o dólar Por aqui disparou e depois CAIU. Isso mesmo. Depois de bater em 3,25 pesos por cada dólar, a moeda americana descendeu a 3 pesos. Isso foi fruto de um movimento de venda de dólares do Banco Central argentino (BCRA) na tentativa de estancar a corrida bancária e a fuga de divisas desencadeada pela greve e sua conseqüente contaminação política. Já escolado por todas as crises que já enfrentou, o argentino pega os poucos pesos que tem, tira dos bancos, compra dólar. Mesmo que tudo na economia indique o contrário, quando isso começa se torna um movimento psicologicamente difícil de parar. Todo mundo buscou comprar dólares, o preço do dólar subia, o BCRA colocava dólares no mercado para tentar baixar o preço. Oferta/demanda de novo.

O dólar artificialmente alto teve uma posterior desvalorização também artificial: o que o governo pretendia era castigar os produtores agrários grevistas, que com uma cotação menor lucrariam menos com suas exportações (principalmente de soja). O ex-presidente Néstor Kirchner, atual presidente do Partido Justicialista e marido de Cristina, é quem realmente manda na economia argentina, e chegou a declarar que queria ver os produtores “de joelhos”. Nem é preciso dizer que os problemas deles, os motivos que deflagraram a greve, não foram solucionados até hoje (tanto que estão realizando uma nova greve!… mas isos já são outros quinhentos…)

El reino del revés

A foto é de maio de 2008 em Buenos Aires; notem a diferença entre dólar e real!

Foto de maio de 2008 em Buenos Aires; notem a diferença entre dólar e real! (O preço que se vê é o de venda. A compra provavelmente rondaria 1,74. Vale a pena ler a nota relacionada, corroborando o que afirmo aqui. Lembrando que, a menos que ocorra uma catástrofe, o Infobae é um meio governista e a explicação é "oficial": a culpa é do "conflito não resolvido com o campo"...

Fonte: Infobae.com

O curioso foi que o dólar despencou de 3,21 para 3 pesos e a cotação do real frente ao peso nem se mexeu. Como podia ser? É que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, comprando cerca de 40% de tudo o que ela produz. Os produtores em greve, em sua maioria vendem soja a mercados asiáticos; se o objetivo era castigá-los, não havia razão para baixar preço do real. Pois a moeda brasileira passou incólume pelo tempo que a greve durou e também depois. Se o valor do real caísse, o país ganharia menos em suas operações comerciais com o Brasil.

Estranho, não? Até uma criança de 5 anos sabe que se uma variável é alterada numa equação, todas as outras têm que se alterar também, se se deseja obter o mesmo resultado final. Mas a Argentina não funciona assim: como eles mesmos costumam dizer, aqui é o reino del revés (um lugar que vive na contramão do mundo).

Depois desde o dia 8 de setembro, o real começou a cair centavo a centado, dia após dia. Por que não caiu antes? Minhas hipóteses eram de que os Kirchner desejavam baratear as mercadorias brasileiras baixando o real devagarinho até, quem sabe equipará-lo ao peso. Ou melhor: valorizando o peso frente ao real. (Lembrando SEMPRE: o peso é desvalorizado artificialmente. Durante 2007, o dólar deveria estar valendo realmente uns 2,75 pesos ou até menos… mas como a Argentina conseguiria superávit assim? Isso tornaria seus produtos de exportação mais caros no exterior, fazendo-os perder mercados.)

As mercadorias brasileiras ficariam “menos caras”; a balança comercial seria levemente menos deficitária em relação ao Brasil; e especialmente os argentinos se sentiriam mais felizes com uma moeda mais forte frente ao real, deixando de achar o Brasil tão caro, cruzando fronteiras para além de Santa Catarina (obs: o ego argentino se regula pela quantidade de vezes que ele foi pra Floripa nos seus dolarizados anos 90 e era tudo taaaaan baratoooo!).

Mas me parece que, de novo, o destino passou a perna nos Kirchner. Ou, para variar, o estrabismo do ex-presidente não lhe permitiu focar no que teriam pela frente: a crise financeira estouraria de vez nos EUA.

E agora?

Nesse exato momento em que escrevo, um turista brasileiro consegue em média cerca de 1,41 pesos por cada real. Muita diferença, não? O preço do real vinha caindo devagarinho, mas de repente não dava mais pra fingir: seria estranho demais, no meio de tudo o que está acontecendo com a moeda brasileira, devidamente documentado em todos os jornais, que o real aqui continuasse caindo a passo de elefante. O caso é que até agora, o governo argentino vinha segurando a subida do dólar. Em poucas semanas, a moeda americana trepou de 3,05 para 3,21 pesos hoje. Ufa! Espero que você, bravo leitor que chegou até aqui, ainda não tenha tido uma crise de labirintite. Complicada essa Argentina, hein?

Crédito da foto

Agora, o turista brasileiro vai ter menos pesos em mãos pra comprar em Buenos Aires. Convém trazer dólares? Depende. Comprar dólares no Brasil e depois vender aqui é perder dinheiro duas vezes, na maioria dos casos (e olha que muita gente ainda faz isso, e fazia mesmo com o real em alta!). Fazer as contas e decidir com as moedas todas tão instáveis é difícil, ainda que necessário.

A única maneira de o real continuar comprando mais na Argentina é se o governo daqui decidir segurar menos as rédeas do dólar na subida e desvalorizar mais o peso, o que aliás já vem sendo pedido pela maioria dos industriais daqui a fim de manter competitividade exportadora.

Existe só mais um probleminha: sem controle inflacionário e uma política econômica séria, não há desvalorização que resolva, muito menos para o turista (isso porque ele nem sofre vivendo aqui, só quer saber de comprar e que seja taaaan baratoooo!) E tais quesitos não figuram na agenda do governo argentino até o momento. Com desvalorização do peso, se você trouxer dólares pode se dar bem… mas e se a inflação comer essa aparente vantagem? O governo interveio no INDEC (Instituto Nacional de Estadística y Censos, o IBGE argentino) e desde então o organismo não publica dados confiáveis sobre a economia. Consultoras privadas prognosticam uma inflação de no mínimo 25% este ano na Argentina (repito: no mínimo!), enquanto o INDEC não deve trabalhar com uma expectativa superior a 8%.

Amigo turista…

…não desanime ainda de fazer as malas para Buenos Aires ou Brasiloche! O jeito é se informar ao máximo para perder o mínimo de dinheiro nesse vaivém de moedas e entender que toda lógica em relação ao dinheiro perde sentido uma vez que você pisar solo argentino.

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  • 1 Vinicius Ramos // Sep 19, 2009 at 6:38 pm

    Muito bom o seu blog, bastante útil. Parabéns.

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