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Morar na Argentina: Buenos Aires bizarra [1]

December 25th, 2008 · 8 Comments · Argentina, Buenos Aires, Morar na Argentina

Hospital Rivadavia, calle Áustria. Recoleta, Buenos Aires – Crédito: Ludmilla Lima

[Post longo, já aviso.] Três dias antes do Natal. Saio de casa, tenho que sacar dinheiro no caixa eletrônico mais próximo. Olho ao redor com atenção: são muitos os “seqüestros express” em Buenos Aires, além de gente que pode estar vigiando quem entra e sai de um banco. Longe de ser paranóia, acontece o tempo todo. Prefiro ir durante os horários em que o banco está aberto (10h-15h), já que ultimamente percebi que perto da minha casa quase todas as agências bancárias têm oficiais da Polícia Federal na porta, armados. Quase todas. É, a coisa está feia em Buenos Aires – nenhum bairro escapa.

Pense na utilidade dessas informações para você e considere fazer uma pequena doação ao site. Obrigada!

Além disso, tirando dinheiro numa agência durante o horário de atenção ao público também evito passar o cartão para abrir a porta, e assim não cair no golpe do momento (um dos…): aquele em que um dispositivo inserido na fenda do leitor do cartão guarda seus dados, para depois”pescar” a senha digitada na máquina. Retiro o dinheiro, tudo certo. O próximo problema a resolver é conseguir moedas.

A falta de moedas na Argentina é um problema crescente e que se agravou nos últimos dois anos. As causas são muitas – não vêm ao caso aqui – e o fato é que pra se mover de ônibus em Buenos Aires você é obrigado a ter moedas. O Banco Central argentino dispôs uma resolução que obriga os bancos a trocarem até 50 pesos em moedas para qualquer pessoa que assim solicite, mas na prática a história é bem outra. Na prática, você come aquela fila, e pergunta humildemente quantos pesos podem te dar em moedas. “Três, cinco”. Dê-se por satisfeito.

Antes de passar por isso, contei minhas moedas e o tempo que eu tinha para fazer tudo o que precisava. “Dá pro gasto”, pensei. Eu já havia feito o que descrevi acima alguns dias antes, numa verdadeira romaria: saindo de um banco e entrando a outro, tentando juntar moedas pra não ter que fazer isso todo dia.

Desisti das moedas. Tinha o suficiente. Mesmo assim, considerei a possibilidade de tomar o metrô. Logo eu, que não tomo mais metrô por razões de segurança diversas. Mas é fim de ano, e um dia antes me disseram que o metrô não estava tão cheio, assim como a cidade não deveria estar. Saio do banco, há uma entrada para o subte bem em frente. Na escada que me leva aos trens, meu pé em movimento prestes a descer o primeiro degrau parou no ar; um usuário sai à minha esquerda, me olha e dispara: “El subte no anda“. Que lindo! Isso poucos dias depois da greve que paralisou a cidade por brigas sindicais dos funcionariós dos subterrâneos e somou mais um capítulo de más lembranças aos usuários de um serviço que consegue piorar a cada dia. Nesses quatro anos aqui e desde que pisei essas terras por primeira vez há sete, nem te conto. Tento ser positiva: “Menos mal que no me detuve en el túnel“.

Calor. Tenho moedas. Vou pro ponto de ônibus. O efeito do metrô parado já se desenha nas longas filas e todas as linhas possíveis estão lotadas. Imagino que o trânsito até o centro não seria dos melhores e entro em qualquer ônibus que me leve o mais próximo possível do meu destino. Dos bairros ao norte até o centro da cidade, é sempre bom optar por alguma linha que passe por Las Heras, avenida quase sempre mais transitável que Santa Fé.

Dito e feito. Após Las Heras, o 41 entra por Pueyrredón e desço na esquina com Santa Fé. Desisto de tomar outro ônibus e gastar mais moedas. Preciso fazer exercício; caminho dali quase até o teatro Colón. Chego, pingando de suor, “feliz”.

Tenho que realizar um trámite. Palavra maldita. Na Argentina, isso significa qualquer burocracia que você tenha que enfrentar para conseguir um papel para… apresentar em outro trámite burocrático. Não me digam que é como no Brasil. É bem pior. No Registro de Nacional de Reincidência, preciso tirar meu certificado de antecedentes penais, um papel em que consta que a cidadã aqui nunca teve problemas com a Lei nem julgada e condenada na Argentina. No Brasil, é um trâmite gratuito na polícia federal. Aqui, custa 25,40 centavos, 40 pesos ou 50 pesos, numa verdadeira máquina de fazer dinheiro, já que há muitos outros trâmites que pedem o tal documento. O que mais me causa espanto é que pedem isso em muitas admissões de emprego. Por isso, a repartição fica lotada, sempre. No dia anterior, o rapazinho da porta me atendeu tão bem que eu fiz questão de agradecê-lo por ter sido educado. Óbvio que ele me olhou com cara de dedo, coitado: minha gratidão/educação é que lhe foi estranha. Já dá pra imaginar como são as pessoas por aqui.

Nessa minha nova visita, o humor geral havia voltado ao “normal” = ruim. A velha ali sentada entabula com esta que vos escreve o seguinte diálogo (devidamente traduzido):

EU: -Oi, como vai? [toda simpática, sorrindo, pra amaciar a velha, porque eu sei bem como é; já devia ter aprendido que isso não funciona onde ninguém tem humor]. Onde começo meu trámite?

ELA: -Que tipo de trámite você quer? [ora, ali só tem um e eu já tinha feito isso antes!; perguntei por las dudas]

EU: -Bem… sei lá [ela me confundiu].

ELA: -Aqui tem vários formulários [com má vontade, gira o corpo na cadeira, aponta para os cartazes improvisados na parede]. Para onde é?

EU: -Ah, com tipos a senhora se refere aos diferentes tempos de tramitação! É para Migraciones.

ELA: -Para amanhã?

EU: -Não sei, se ainda der pra sair hoje…

ELA: -Não, não dá.

EU: -Amanhã, então.

ELA: -Oito da manhã?

EU: -Pode ficar pronto às 8h da manhã? Bueno.

Estica o braço, me dá um formulário para pagar numa agência bancária armada ali mesmo. Fila, pequena. O caixa me atende: “Son 50 pesos“. Respondo que são 40, porque era para o dia seguinte. Olho o formulário e dizia “Trámite de 8h“. Ele: “Ah, então tem que ser outro”.

Volto à vaca, digo, à velha fria. Conto até dez – dez mil.

EU: -A sra. me deu outro formulário, eu preciso do que é para 24h.

ELA: -Mas você me disse que queria para amanhã às 8h da manhã [errmm... foi ela quem disse isso!]

EU: -Não disse isso, mas se é para amanhã, são 24h.

ELA: -Você acha que sendo duas da tarde seu trámite vai ficar pronto amanhã de manhã? É o de 8h.

Bem, nesse ponto vale uma digressão. O diálogo, de minha parte, foi normal, mesmo porque já me cansei das discussões portenhas por nada, e queria evitar mais uma. Se precisar, lanço mão e encarno, de corpo e alma, uma legítima portenha, ao ponto de um amigo meu dizer que eu sou uma pessoa falando português e outra falando espanhol. Aprendi a me defender; sabia que para só poderia ser respeitada se brigasse igual no país em que a discussão por nada, al pedo é um esporte nacional. Há prós e contras, mas o melhor pró é que me olham e ficam paralisados; não conseguem associar o que vêem ao que escutam. Uma menina com sotaque, mas o sotaque é pouco… é daqui ou não? Mas tem todos os maneirismos daqui… Brasileira branca? [Simplificando, pra eles todo brasileiro é preto e se você for branco, é porque é rico. É classista assim a sociedade/mentalidade argentina, aprendam.] Pareço ucraniana, sôo ucraniana, alemã, me perguntam se tou judia/israelita. Enfim, não me enquadram. Ótimo.

Dessa vez, voltei ao “cinismo com finalidades práticas”, ou “nada me tira do sério, nem você”. E 24h significa amanhã, a qualquer hora, não me venha dar uma de Suécia nessa altura do campeonato. Me engana que eu gosto. Foi por isso que nessa hora eu brequei a velha, que já ia se alterando, e disse: “Sra., isso não é uma briga. Estou dizendo que aconteceu blá blá, e é só blá, a sra. falou tal coisa que foi entendida como tal [como deve ser!, diga-se de passagem] e pronto, nada mais, pra que tudo isso!?”

A velha me diz – não tão bem – que tudo bem, e que eu devolva então o formulário anterior. O cara do caixa já o havia destruído, provavelmente. Quem se importa? Rasgue esse e me dê outro, você tem um bloco inteiro. Vou lá.

EU: -A sra. está pedindo o formulário.

ELE: -Por quê?

EU: -Disse que precisa, que não pode me dar o outro se não…

ELE: – Mas eu já…!

Ai. Velha.

EU: -O caixa parece que já destruiu o papel.

Ela se levanta furiosa, deixa todo mundo esperando na fila, vai ao caixa, pede satisfação, o cara estressado porém mantém uma atitude entre tentar explicar e não dar bola, difícil de pôr em palavras. E eu digo que já que ela tinha me dito que… Nisso, a velha põe o dedo em riste [portenha típica] e num tom portenho típico me puxa pra briga: “¡‘Cucháme una cosa! Vos me habias dicho que…”

Eu fecho os olhos, levanto a sobrancelha: “Sra., não importa, isso não importa, se da cuenta?” [porque aliás obviamente eu não disse nada do que ela ia dizer que eu havia dito] Tentei dizer que, se para ela amanhã às 8h da manhã significam 8h de espera, ainda que fossem 18h, OK, contanto que ela explicasse o inexplicável antes, porque eu já sei que qualquer desculpa nesse país serve para tirar dinheiro do bolso das pessoas. Quarenta, 50 pesos, que importa!? Esses dez nem vão pro bolso dela, pra que dificultar a minha vida com uma pelotudez [idiotice]? Pra que um sujeito se levanta para trabalhar mal e tratar as pessoas mal? Que estranho prazer há nisso? A essa altura, parece naïf a gente se perguntar isso, e eu não sou nada ingênua, mas cansei. Se você pensar bem, não há ingenuidade nessa pergunta, não.

O caixa ainda tinha o papel. Estava mais ou menos, mas estava lá. Eu fechei os olhos pra falar e despachar a mulher, então nem a vi voltando ao seu trono. O cara preferiu baixar a cabeça e me cobrar [sábio, ele vê a velha todo dia mesmo e sabia que a culpa não era minha]. Reclamo, com apenas uma frase. Vou pra outra fila.

O painel com os numerinhos eletrônicos marcava 495. O meu era 460. O que foi que eu perdi? Sei que não se caracterizam pela rapidez… e entro na fila assim mesmo. “Quando for minha vez, eu explico”, penso. Na minha frente, uns bolivianos, ou peruanos talvez, estes bem humildes [porque há os que não o são]. A mocinha é chamada, com um bebê nos braços, para deixar suas impressões digitais. Espio e me regozijo: eu não precisaria usar o sabão líquido e os lencinhos húmidos que havia levado para limpar as mãos. Diferentemente do piche com que me sujaram os dedos há dois anos ali mesmo, finalmente ocorreu uma revolução no departamento. Descobriram o scanner digital, e compraram vários, pequenininhos. Aleluia [sim, porque há outros itens, como o silenciador de motos, que ainda não descobriram por estas pampas].

No gogó, um funcionário chama o próximo da fila, com desinteresse. O rapaz, provavelmente esposo da mocinha com o bebê, não escuta. O senhor não se importa, não chama de novo, enfim, o problema não é dele, que se dane, certo? O segundo rapaz na fila avisa o primeiro, que troca olhares com o tal funcionário. “¡Vamo’, viejo, vamo’ que no tenemo’ todo el día!“, grita o velho, comendo os S correspondentes, agressivo, corpo tombado à esquerda, braços balançando no ar. O rapaz vai em sua direção, intimidado.

Mais algumas pessoas, e chega a minha vez. O senhor que me atende, simpático, me pergunta se eu já fiz o trámite antes, vira meu documento prum lado e pro outro. Percebo que ele não entende onde está o que, com sempre. “Aqui o número, aqui meu nome”. “Mas que linda está na foto, como fica bem o seu cabelo assim pra um lado…” Foto do RG, eu tinha 16 anos.

EU: -Faz tempo isso aí… que ano foi mesmo? Deixe eu ver.

ELE: -Mas você é muito jovem…!

E me canta algo, e algo me diz que era um tango. Eu sorrio, já sabendo o quão galanteadores são os velhinhos [homens] dessa terra, que não tiram o time de campo. Prefiro considerar seu senso de humor, naquele lugar, àquela hora.

EU: -Tá todo mundo louco nesse país.

ELE: -Queeeeeê? [assim longo, todo docinho]

EU: -Primeiro uma velha me trata mal, agora o sr. me canta um tango…

ELE: -Quem, aquela lá? Liga não, está mal atendida essa aí. ["mal comida" foi o que ele quis dizer; e olhou para os lados, como que buscando alguém que corroborasse sua afirmação; à sua esquerda, outra velha, que não lhe dá ouvidos]

Maravilha. Ponho os dedinhos no scanner. Saio, mãos limpas, papelzinho para retirar meu trámite no dia seguinte, recarrego minha garrafinha de água. Tchau velha, suerte.

Um dia assim é normal em Buenos Aires. Olha que nem contei o dia todo. Tem mais.

E ainda aturo quem vem dizer que eu não sei lidar.

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8 responses so far ↓

  • 1 moni // Jan 29, 2009 at 3:46 pm

    Haha amei seu blog.
    Me identifiquei mtoo… Um dos poucos que fala a “realidade” e não só paga pau…

    Eu vejo mto esse lado “bizarro” apesar de gostar daqui. Cada dia é único. Cidade de loucos. Cada dia uma risada, uma indignação diferente…

    Mas aguante Buenos Aires!

  • 2 cartasargentinas // Feb 12, 2009 at 6:54 pm

    Morar em Buenos né brinquedo, não.

    Esse negócio de pagar, babar pelos lugares, sem ter visão crítica e ainda aproveitar para falar mal do Brasil só de passagem… tudo isso não é mesmo meu “middle name”.

    Isso pq eu ainda nem botei a boca no trombone sobre Buenos e a Argentina aqui no blogue…

    Seja bem-vinda!

  • 3 Claudio fsc // Jun 22, 2009 at 4:04 am

    Realmente o que vc falou é uma verdade. Já estive 5 vezes na Argentina, conheço Buenos Aires, Mar del Plata, Mendonza, Bariloche e outros rincões ao sul. Concordo com vc que os portenhos sejam realmente difíceis de se dar, são esnobes talvez “resquício” do tempo das vacas gordas. Logicamente me reconhecendo como brasileiro me olham um pouco atravessado. O segredo é não estressar, pois afinal, até mesmo o resto da Argentina tem restrições ao comportamento dos portenhos, quem me disse foi uma pessoa em mendonza. Tirando esse stress que ocorre por todo o lado, também aqui no Brasil, o povo argentino em sua maioria é educado e tem sensibilidade, é preciso saber entender “los hermanos”. A Argentina não é só a província portenha. A grande tristeza é que os muitos descendentes de índios e outras nacionalidades como peruanos e paraguaios são muito discriminados. Vi isso com os descendentes indígenas em Bariloche. Mas acho que as coisas já estão mudando. Veja por exemplo o que aconteceu com as placas dos automóveis, eles não têm o nome da província, pois houve muita violência de outras províncias quando chegavam carros de BA. É preciso tirar o lado bom de toda situação. Espero que todos esses mal tratos não tirem de vc o encanto desta cidade e do seu povo. Há pessoas excepcionais em Buenos Aires, como em todo o resto do mundo.

  • 4 Claudio fsc // Jun 22, 2009 at 4:09 am

    Onde se lê mal tratos, leia-se maus tratos. :)

  • 5 Jener // Aug 23, 2009 at 9:45 am

    Que novela! Mexicana? Não, Argentina mesmo.

    Logo irei pela segunda vez a Buenos Aires, e teu relato confirma a impressão que eu tive dos portenhos e sua [des]organização, com detalhes bem pertinentes.

    Quando quiseres descarregar alguma outra frustração ou falar de boas coisas, fica à vontade, o público agradecerá! ^_^

    Um abraço!

  • 6 Samuel // Jan 7, 2010 at 9:03 pm

    Olá, parabéns pelo site, contém muitas informações interessantes. Também achei muito bom você expor Buenos Aires de um ponto de vista mais real, de quem realmente mora lá e sabe das dificuldades do dia-a-dia, diferentemente de um turista que muitas vezes vê apenas o lado bom da cidade. Passei dois dias por lá em uma viagem de cicloturismo em janeiro de 2008. Agora estou querendo voltar lá para morar por um período mais longo no meio desse ano. Pretendo trabalhar e estudar se possível. Primeiramente pretendo pegar qualquer emprego e mais tarde penso em lecionar em escolas, porém ainda não sei muito bem como funciona o sistema para se começar a lecionar lá. Sou formado em licenciatura em Física e estou terminando um mesttrado. Gostaria da sua ajuda para saber se é facil ou dificil de se conseguir uma vaga para lecionar no ensino público, será que eu conseguiria uma vaga no final/começo do ano, ou demoraria mais tempo? Por favor se você pudesse me ajudar com essa informação eu ficaria muito grato. Pode me enviar um e-mail se puder. Antecipadamente agradeço.

  • 7 Piniolis // Jan 15, 2010 at 8:47 pm

    Amei teu blog…
    Ótima narrativa da vida Portenha…

    Abraços

  • 8 cartasargentinas // Feb 10, 2010 at 10:10 am

    Hehe! A seu dispor, Piniolis! Aliás, se eu falasse tudo… É assunto que não acaba… E vem mais por aí… =)

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