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O título é um disparate, mas uma frase parecida a esta foi proferida semana passada na Argentina profunda.
É que numa das diversas apresentações feitas à imprensa para a promoção do Rally Dacar 2009 (a ser realizado na Argentina e no Chile em janeiro próximo), Oscar Folmer, coordenador regional do evento para a província (estado) de La Pampa soltou essa pérola: “Em média, morrem três pessoas por competição do Rally Dakar. Não quero ser mórbido, mas quem dera alguns acidentes fatais ocorressem aqui, assim La Pampa ficaria mais conhecida no mundo”. [Com arquivo de áudio!]
Isso mesmo. Um coordenador regional do rally pretende fomentar o turismo no interior da Argentina com duas preciosas ferramentas em mãos: acidentes e, se tiver sorte, mortes.
A nota saiu numa coluna do Diario de la Pampa e foi fazendo, pouco a pouco, eco nos meios nacionais. Meu caminho até ela, por exemplo, começa no jornal Perfil (nacional), passa pelo La Voz del Interior (Córdoba), chegando a matérias do Diario de La Pampa para só então clicar na coluna El Gallito Canta.
PALABRAS MÁS, PALABRAS MENOS, UMA TRAPALHADA

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Essas coisas são como a brincadeira do telefone sem fio. A coluna El Gallito Canta informa que, enquanto apresentava o percurso do Rally Dakar 2009 com um arquivo em PowerPoint, Folmer apontou alguns trechos como “lugares de ação”, onde muitos caminhões podem tombar. Citou a média de mortos e engrenou: “Quem dera algum deles (dos acidentes fatais) ocorra aqui em La Pampa”.
Isso foi no útimo dia 23 de outubro, a coluna saiu no dia seguinte e a reprodução da frase em outros meios, palavras mais, palavras menos, fez barulho suficiente para que o homem saísse a se justificar, cinco dias mais tarde, dizendo que sua declaração foi “tirada de contexto”. Folmer enviou ao Diario de La Pampa uma “carta aberta à opinião pública”, na qual afirma que “a interpretação que foi feita (de suas palavras) não reflete a intencionalidade e além do mais, eu diria, foram ditas quase numa roda de amigos”. É o nome que ele dá a um ato promocional de um evento internacional organizado pela Subsecretaria de Turismo da província, dirigido a jornalistas. Aproveitou para lamentar ter causado danos ao governo de La Pampa e à organização do Rally Dakar.
Aqui, o áudio do programa Turismo Carretera (AM 570) que entrevistou Folmer sobre o episódio. Desnecessário é dizer que as desculpas não recorreram nem meia Argentina.
LA PAMPA E O RALLY DAKAR 2009 NA AMÉRICA DO SUL
“La Pampa convida a viver” Crédito da foto
Pela primeira vez em sua história, o Rally Paris-Dakar será realizado fora de seu trajeto euro-africano. Por ameaças de atentados, este ano foi cancelado e talvez os organizadores tenham visto nesta parte do mundo não apenas uma região mais tranqüila como também vantagens cambiárias que justificassem seu traslado ao continente sul-americano em janeiro do ano que vem.
Argentina e Chile vêem no evento uma excelente chance de promover o turismo no interior e na Patagônia. Para províncias como La Pampa, é uma oportunidade única, e já explico por quê.
Aproximadamente, La Pampa equivale em área ao estado do Amapá ou metade do Rio Grande do Sul. Segundo projeções do INDEC (o IBGE argentino) para 2008, vivem na província pouco mais de 330 mil pessoas. Trocando em miúdos, é um deserto verde, e esse verde em grande parte corresponde a plantações de soja (a província já teve trigo, milho e girassol como principais cultivos). Outro pilar de sua economia é a pecuária. Em 2001, a capital, Santa Rosa, tinha mais ou menos 100 mil habitantes.
Estive aí em abril passado e no guichê da rodoviária de Córdoba, quando perguntava por horários e preços para chegar a Santa Rosa, me olhavam com cara de: “Que diabos você vai fazer aí?” A rigor, ninguém vai a La Pampa, a não ser que realmente precise de uma parada entre um ponto e outro numa viagem. (No caso, eu estava fugindo das cinzas de um vulcão e fumaça de queima de pasto, que tornavam perigosa demais a volta a Buenos Aires por um caminho, digamos, mais convencional.)
Quando o assunto é turismo, as duas grandes atrações – de difícil acesso, mesmo partido de Santa Rosa) são o Parque Nacional Lihué Calel e o Parque Luro, considerado reserva natural e nada menos que Monumento Histórico Provincial. Oscar Folmer já foi coordenador geral dessa reserva, além de diretor de indústria do ministério (secretaria) de Produção de La Pampa.
Esta que lhes escreve teve a curiosidade de buscar o site da subsecretaria de Turismo (que pelo visto, também depende do ministério de Produção) e não pôde se conter diante da ironia do slogan de promoção da província: “La Pampa convida a viver”.
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4 responses so far ↓
1 Tatyana // Nov 2, 2008 at 6:56 pm
que comentário infeliz… ‘¬¬
o senhor em questão bem que poderia saber que se há imprensa em volta e ele solta um comentário desses, lógico que vai virar matéria. talvez ele nem tinha dito com estas palavras, mas… o que vale é a repercussão que conseguiram, né? (imprensas e imprensas…)
restou o pedido de desculpas.
é, o peixe morre pela boca.
2 cartasargentinas // Nov 3, 2008 at 1:05 am
Pois é, Taty… Na verdade eu sou imprensa também!
Mas que foi uma pisada de tomate, foi. Aliás, lendo meu comentário, você vê que eu fui atrás da coluna original pra saber como foi realmente. Entre o que disse um jornal e outro não houve alterações substanciais. E ele mandou uma carta com desculpas, mas – infelizmente – é normal que não resolvam muito, e muito menos num caso desses. Acho que a imprensa só reflete em grandes traços a natureza humana (jornalistas são pessoas). Mesmo que as desculpas repercutissem tanto como a declaração inicial, sejamos francos… adiantaria? O cara tem que medir o que diz numa hora dessas. A prova da falta de noção é justamente ele dizer que era “quase uma roda de amigos”. Lamentável.
Sinceramente, não sei quando volto a La Pampa, mas gostaria que não fosse tão complicado chegar aos parques nacionais, no mínimo! Havia um ônibus de Santa Rosa ao Lihué Calel, mas que foi tirado de circulação. A única opção era táxi: 2 pesos por quilômetro. Parece pouco, mas por 30km gastaríamos 60 pesos só na ida, sendo que o táxi nos deixaria na junção de uma estrada principal e a vecinal que leva ao parque, e daí teríamos que caminhar o restante; na volta, outros 60 pesos e… como pegar táxi numa estrada? Teríamos que combinar tudo ANTES. Quem se anima? Para efeito de comparação, há uma cidadezinha do mesmo tamanha que Santa Rosa chamada Tandil na província de Buenos Aires, que fica há 5h da capital. A passagem, em abril passado (mesma época em que tentei ir ao Lihué Calel) custava entre 50 e 60 pesos. Pagar 60 pesos por 5h ou 120 por dois trechos de meia hora? Absurdo, e por total falta de opção.
Num lugar “tão bem equipado para o turismo”, alguém ainda desejar mortes para que a província seja conhecida é um delírio.
Enfim… Obrigada pela nova visita, a casa é sua
Besito!
3 qgfelipe // Nov 4, 2008 at 3:44 pm
Este foi infeliz no comentário, deverá perder o posto de coordenador….
Ele se esquece que deve ter gente da coordenação no meio dos acidentados…
Achei interessante seu texto, tomei a iniciativa de publicar em meu site, citei a fonte com um link.
Obrigado,
João Felipe
4 cartasargentinas // Nov 4, 2008 at 4:34 pm
Oi João Felipe! Repito aqui o que comentei lá no Motokando.com, antes mesmo de ter visto seu comentário!
Obrigada pela visita, por valorizar meu trabalho e destacá-lo no site. Espero vê-lo mais vezes no Cartas Argentinas e que, felizmente, os updates de notícias não sejam trágicos.
Concordo que a declaração seria suficiente para perder o posto de coordenador. Mas até agora isso não aocnteceu e parece que foi colocada uma pá de cal sobre o assunto. ¡Saludos!
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